A vida nem sempre corre da forma
que desejamos. Todos nós temos queixas, todos nos temos birras, todos nos mudávamos
alguma coisa. Mas há sempre aquele momento em que desejamos que tudo fique
exactamente igual, que nada mude porque é tudo perfeito. Esse momento é aquele
em que o dia-a-dia como o conhecemos está por um fio, mesmo prestes a mudar,
sempre pra pior.
Fico assustada, com vontade de
chorar, a imaginar todas as possibilidades e a cobrir todas as bases. Quero
gritar, atirar-me para o chão, bater em alguém, partir tudo mas sei que isso
não vai ajudar. Preciso de falar com alguém. Não posso falar com a minha mãe
porque não a quero preocupar, os meus amigos só me vão dizer que não é nada, um
desconhecido não vai agir. Acabo por ligar à mãe.
O telefone chama a primeira vez, a segunda e a
terceira. Ninguém atende. Penso para mim que ela nunca está lá quando é
preciso, a distância estragou-a, fê-la descuidada. Uma voz responde-me do outro
lado da linha. Sinto imediatamente um alívio e peço mentalmente desculpa por
tudo porque nada daquilo era verdade. Conto-lhe o problema, tenta acalmar-me e
dizer que vai ficar tudo bem. Não é isso que quero ouvir. Exalto-me, grito,
quase choro. Estou preocupada, assustada e neurótica. Quero estar lá, perto
dela porque de certa forma, e mesmo que nada se resolva assim, junto da
progenitora tudo fica melhor e parece mais fácil. Ela é uma super-heroina, sabe
sempre o que fazer mesmo que não saiba. Nascemos da segurança do seu ventre e
mesmo à distância é com ela que nos continuamos a sentir seguros. Conto-lhe a
minha ideia, aceita e dá-me ordem para a executar ainda que pareça relutante.
Promete cumprir o que lhe pedi e diz-me o que fazer entretanto. Fico mais descansada.
Ela sabe, já está a tratar de tudo, vai ficar tudo bem (mesmo que não fique).
Tenho uma lágrima no canto do
olho que reprimo por estar no meio da rua. O meu rosto está melancólico, a
expressão é preocupada e o andar é lento e pouco ritmado como o de quem está
envolto nos seus pensamentos sem se aperceber do que se passa à sua volta.
Chego a casa mesmo ao fim do dia,
já passa das dez. Entro, cumprimento as pessoas, vou para o quarto e deito-me.
Escrevo antes de dormir e choro ao de leve.
Pode não ser nada,
mas também pode ser tudo.
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