Jan 1, 2013


Na sala a família, sempre pequena, jogava às cartas e conversava junto à lareira para aquecer os ossos molhados da chuva e frio.

                O ar estava abafado e por isso vesti o casaco, coloquei o cachecol no pescoço e abri a porta para sair dali. Encostei-me à parede, sozinha, com o silêncio da noite e fiquei a contemplar a árvore que estava diante de mim agora despida de folhas e cujos únicos assessórios eram dois diospiros já em estado degradado que esperavam que a leve brisa os fizesse levantar voo terminando a sua vida. Apercebi-me então que aqueles eram os últimos diospiros que iria ver no ano 2012 e estupidamente, sem sequer pensar, fiz uma vénia para me despedir deles… e mais tarde também da laranjeira e do limoeiro.

Enquanto vagueava pelo pátio da minha antiga casa de infância, agora habitada por um tio que gentilmente nos acolhe todos os Natais e nas passagens de ano, e procurava a “minha” jovem estrelinha, de seu nome Estrelícia, olhei para o relógio. Faltavam quinze minutos para a meia-noite. Não pude evitar pensar que mais um ano estava prestes a acabar e assim fui invadida pela melancolia e nostalgia que me fizeram soltar uma lágrima. Olhei para a gota que caiu do meu rosto, toda ela colorida pelo rímel que usava hoje e sempre. Era negra, tão negra como alguns momentos que este ano me proporcionou. Porém quando limpei a segunda lágrima, que nessa altura jazia já no meu queixo, reparei que era límpida, sem tinta alguma que deturpasse a sua pureza. Como essa recolhi mais duas dos meus olhos húmidos. E então apercebi-me que tal como as minhas lágrimas tão salgadas como o mar, neste ano, e de certa forma em toda a minha vida, sempre existiram duas cores, mas a mais escura, tingida por um químico qualquer que lhe roubava a pureza original, era apenas uma minoria no meio de um lago imenso e profundo de água transparente, quente e acolhedora.

                2012, apesar de tudo o que de mau me trouxe, foi bom, cheio de felicidade e desafios superados. Espero que 2013 seja da mesma forma, não demasiado fácil para não me aborrecer, mas ainda assim rico em sorrisos, gargalhadas, energias positivas, sorte e sucesso.

A vós desejo que concretizem os vossos sonhos porque eu estou quase a alcançar os meus.

Bom Ano para todos e, como dizia um grande senhor do teatro português: “façam o favor de ser felizes.”

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