Na sala a família, sempre
pequena, jogava às cartas e conversava junto à lareira para aquecer os ossos
molhados da chuva e frio.
O ar
estava abafado e por isso vesti o casaco, coloquei o cachecol no pescoço e abri
a porta para sair dali. Encostei-me à parede, sozinha, com o silêncio da noite
e fiquei a contemplar a árvore que estava diante de mim agora despida de folhas
e cujos únicos assessórios eram dois diospiros já em estado degradado que
esperavam que a leve brisa os fizesse levantar voo terminando a sua vida. Apercebi-me
então que aqueles eram os últimos diospiros que iria ver no ano 2012 e estupidamente,
sem sequer pensar, fiz uma vénia para me despedir deles… e mais tarde também da
laranjeira e do limoeiro.
Enquanto vagueava pelo pátio da
minha antiga casa de infância, agora habitada por um tio que gentilmente nos
acolhe todos os Natais e nas passagens de ano, e procurava a “minha” jovem estrelinha,
de seu nome Estrelícia, olhei para o relógio. Faltavam quinze minutos para a meia-noite.
Não pude evitar pensar que mais um ano estava prestes a acabar e assim fui
invadida pela melancolia e nostalgia que me
fizeram soltar uma lágrima. Olhei para a gota que caiu do meu rosto, toda ela
colorida pelo rímel que usava hoje e sempre. Era negra, tão negra como alguns
momentos que este ano me proporcionou. Porém quando limpei a segunda lágrima,
que nessa altura jazia já no meu queixo, reparei que era límpida, sem tinta
alguma que deturpasse a sua pureza. Como essa recolhi mais duas dos meus olhos húmidos.
E então apercebi-me que tal como as minhas lágrimas tão salgadas como o mar, neste
ano, e de certa forma em toda a minha vida, sempre existiram duas cores, mas a
mais escura, tingida por um químico qualquer que lhe roubava a pureza original,
era apenas uma minoria no meio de um lago imenso e profundo de água
transparente, quente e acolhedora.
2012,
apesar de tudo o que de mau me trouxe, foi bom, cheio de felicidade e desafios
superados. Espero que 2013 seja da mesma forma, não demasiado fácil para não me
aborrecer, mas ainda assim rico em sorrisos, gargalhadas, energias positivas,
sorte e sucesso.
A vós desejo que concretizem os vossos sonhos porque eu
estou quase a alcançar os meus.
Bom Ano para todos e, como dizia um grande senhor do teatro português:
“façam o favor de ser felizes.”
No comments:
Post a Comment